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Lugar de afetos

Psit, psit! Sou o “Muro”, olhe à sua esquerda, onde vai? Não quer conversar comigo um bocadinho? Gostaria de contar a alguém, feito gente, as recordações de um passado muito distante, antes que o tempo me apague a memória e me roube a única herança que possuo. Sabe, gostei da maneira como olhou a minha vizinha “Fonte” e até como a tocou. Pareceu-me que a acariciava…não tem um tempinho para me ouvir?

Ó “Muro”, não estejas triste. Lá porque se voltou para mim não quer dizer que esta amiga te ignorou, apenas, e só, me olhou primeiro. Espera que eu já resolvo o problema.

Fonte - Não se assuste amiga. Nós somos muito ligados, vimos da mesma raiz, somos primos em primeiro grau e as nossas histórias não fazem sentido, contadas só por um de nós.

Muro - Não temos idade; somos de origem intemporal, mesmo desfeitos, reduzidos a areia, continuamos com alma de pedra.

Fonte - Ai, não sabia que temos alma? Pois é…a alma das pessoas sobe para o Céu, levada pelos Anjos e a nossa desce ao fundo da Terra embalada pelas águas profundas dos Oceanos e voltando às praias sempre que lhe apetece.

Muro - Eu fui feito Muro por mãos humanas; mãos calejadas mas muito meigas que foram carinhosamente trabalhando todo o meu corpo, colocando pedra sobre pedra. Todos os dias vejo e ouço as gentes da minha terra; sei quando estão tristes, contentes, zangadas, felizes.

Fonte - Eu sou a Fonte, lugar onde corre vida e onde as pessoas trazem pedaços de seus dias; uns cheios de alegria e entusiasmo, outros carregados de mexericos, intrigas e mal dizer e ainda outros de desabafos de dor que tentam lavá-los na água da minha fonte.

Muro - Já vai longe a época em que este sítio era tranquilo; de uma maneira ou de outra estávamos sempre acompanhados; as crianças da escola colocavam as sacolas em cima de nós para, numa saudável competição terminarem os jogos que interromperam no recreio da escola: a malha, o pião, a raiola, esconde –esconde, a macaca…

Fonte - Aos sábados e domingos à tarde os homens e os jovens procuravam este espaço como lugar de encontro para fazerem negócios, para conversarem e falarem de suas vidas e simplesmente para se divertirem a ver os poucos automóveis que passavam na estrada. Aqui no meu largo faziam-se bailaricos nos domingos de Verão…e cascatas em honra dos Santos Populares… não esquecendo, claro os namoricos que aqui se arranjaram.

Muro - Estás a esquecer-te, querida prima, o que os rapazes novos preparavam para o Carnaval. Eram muito malandros mas eram também respeitadores. Sentados em cima de mim combinavam os casamentos e todas as malandrices (as pulhas) que se faziam nesta época; casavam as moças com os próprios namorados (sobretudo quando os pais destes, ainda não tinham conhecimento) casavam moças novas com homens mais velhos e viúvos…e no dia seguinte, espreitavam as reações; umas ficavam envergonhadas, outras apreensivas e as que não foram premiadas como queriam, ninguém as aturava, ficavam furiosas!

Fonte - Olhe, já lá vão uns anos mas eu recordo o amor que nasceu e cresceu entre um par de namorados, o António José Silva e a Elvira Rosa Amaral…era um casal bonito, fizeram 53 anos de casados, pelo que via e ouvia eram muito felizes. A Elvira Rosa, adiantou um pouco a sua partida…O António, com 83 anos, continua a visitar-nos, mas sabe, nada terminou, o amor que os uniu, será eterno certamente.

Muro – Acredite, nada se passava nesta aldeia que nós não soubéssemos. Os homens falavam do trabalho nos campos, das novidades nas suas hortas, da casa que construíram ou restauraram para a família, do nascimento dos seus animais domésticos, contavam anedotas, riam e falavam alto. As mulheres, essas vivem mais de emoções, confidenciavam-nos o orgulho e o amor que sentiam pelos seus “homens”, anunciavam-nos baixinho os primeiros sinais que indicavam a chegada dos filhos…choravam no nosso ombro…claro que temos ombros, a tristeza de ver partir os entes queridos, descarregavam as suas raivas pelas injustiças que se praticavam, mas também cantavam, riam às gargalhadas, e quando a alegria chegava dos rostos das crianças até as pedras da calçada cantavam e bailavam connosco!

Agora sim, amiga, já lhe dissemos tudo o que tínhamos guardado em “nossos corações” (Está bem, já percebemos que entendeu que também temos coração…) e acreditamos que irá dizer a toda a gente que as pedras, falam e têm alma e coração… é só preciso olhá-las, escutá-las e amá-las.

Profundamente gratos deixamos um abraço para si.                                              

O Muro e a Fonte de Carvalho de Egas


por Maria Isabel Cardoso