
Entre as várias tradições que se contam na minha aldeia, Carvalho de Egas, no concelho de Vila Flor, uma há que me apaixona e me deixa curiosa: é sobre a Santa Maria Adelaide.
Diz o povo que tão santa personagem foi nascida e criada em Carvalho de Egas lá no século XIX, sendo filha de José de Carvalho, não teve irmãos e ficou sempre solteira.
Foi tocada pelo infortúnio de adoecer gravemente, tendo-lhe aparecido uma ferida ruim na boca, que alastrou à cara e logo a desfigurou, dando-lhe aspecto repugnante, bem como o cheiro nauseabundo que emanava.
Maria Adelaide tendo a perfeita noção de que as pessoas a evitavam por causa dessa desdita, apegou-se a Nossa Senhora, pedindo-lhe ardentemente que modificasse a natureza da sua doença, em vez da ferida a corroer por fora, podia carcomê-la por dentro e ela sofreria em silêncio, pois somente não queria ser motivo de escárnio e nojo.
E logo se operou o milagre, pois a face de Maria Adelaide voltou à anterior formosura, enquanto ela continuava doente.
Penitente sofria em silêncio, mas foi a pouco e pouco perdendo forças, até chegar ao ponto de necessitar dum amparo, que encontrou junto duns tios que moravam no Porto, donde mais tarde passou a Arcozelo em 1876, onde veio a falecer e aí foi enterrada em 1885.
Tempos depois, em 1916, por motivos de obras no cemitério paroquial, a fim de se construir um jazigo, na medida em que a campa fora vendida, o corpo de Maria Adelaide foi encontrado intacto, incorrupto, quase com a mesma frescura com que fora enterrada, chegando mesmo a ser picada e o sangue brotava como se de um ser vivo se tratasse.
E assim nasceu a lenda duma santa, a “Santinha de Arcozelo”, muito querida pela devoção popular, com capela naquela localidade, na qual se encontra em carne e osso.
Também é venerada por muitos, pelo País inteiro, ali dirigindo-se em visitas particulares e em excursões.
Numa dessas excursões há já alguns anos feita por pessoas de Carvalho de Egas, em conversa casual, contaram em Arcozelo esta história corrente entre nós, tendo logo de imediato gerado uma grande zaragata, de tal modo que os visitantes tiveram que se meter no autocarro e zarpar dali para fora a fim de evitar problemas e males maiores.
Ainda no final da sua vida, lá para o ano de 1884, a – futura – Santa Maria Adelaide quis voltar à sua terra, em Carvalho de Egas, a fim de ali passar os últimos dias e ser enterrada juntos dos seus familiares e entes queridos, mas não foi bem recebida, nem pelos poucos familiares, nem pelos garotos que lhe terão atirado pedras.
Retirou-se, jurando, contudo, voltar um dia para o repouso eterno, mas só quando se tiver extinguido a quinta geração da sua família, a qual ainda vai nesta altura, precisamente, na quinta geração.
Por: Maria de Fátima Amaral